Capítulo 1 do romance O Labirinto do Cravo

Capítulo 1: Barulho
K.[1]
abriu os olhos, parou o alarme do celular e viu que horas eram. Bocejou e se
espreguiçou. Fez menção de se levantar, mas não resistiu à curiosidade de pesquisar
por novidades em suas redes sociais e rolou na cama. Foi de aplicativo em
aplicativo se atualizando, vendo as curtidas e os pedidos de novas amizades, até
que deu um sorriso maroto ao perceber a resposta de uma esperada mensagem. Não
a visualizou, entretanto. Fazia parte do seu jogo. Já estava atrasado e
precisaria se apressar para não por em risco sua presença na aula.
Ele ainda não tinha completos seus
trinta anos.
Seu pai era bem situado
financeiramente, em decorrência de uma bem-sucedida revendedora de automóveis
montada, em Belo Horizonte, nos idos de 1990. Não tinha, assim, muitas
preocupações, a não ser seu desejo inconsistente em fazer um curso de pós-graduação
em cirurgia plástica no exterior, precisamente em Frankfurt am Main, Alemanha. Ele
estava se formando em medicina e acalentava esse sonho há tempos para lhe
trazer a fortuna e o sucesso que almejava para ser feliz.
Mais alto do que a média
brasileira, com um metro e oitenta centímetros; cabelos castanhos bem aparados,
mas que deixava em desalinho por despojo; olhos escuros, rosto alongado, queixo
quadrado e nariz afinado, K. sempre se vestia convenientemente e, tanto no dia
a dia do trabalho quanto nos dias de folga, suas roupas eram escolhidas com
atenção. Preocupava-se com sua imagem. Seguia várias páginas de moda na internet e colecionava visuais para
reproduzi-los, e o fazia com talento. Ao sair de casa, ele sempre se olhava no
espelho para ter ciência que estava tudo na mais perfeita harmonia. Sua
autoestima era elevada e sempre concordava consigo mesmo, e olhando para o
espelho, via que era bonito. Ao final, dava uma piscadinha para si mesmo,
tirava algum cisco da roupa, se perfumava e ia para a vida. Era, evidentemente,
vaidoso.
K. possuía várias tatuagens, uma maori
que cobria todo o braço esquerdo e parte dos ombros e peito, e outra de dragão
em quase toda a extensão das costas: “Isca de vagabunda” - afirmava aos sempre
presentes amigos em meio aos risos sarcásticos, mostrando o muque do braço.
Frente às inúmeras atividades
acadêmicas; estudos para a especialização médica que queria fazer na Alemanha;
atividades sociais; estudo do alemão etc., ele preferia se dedicar a opções
mais prazerosas, como festas com os amigos, mulheres e cervejas.
Sobre sua mesa, entretanto,
inúmeros panfletos e cartilhas de cidades alemãs e sempre que os via, se
fortalecia no seu desejo de estudo, mas logo se entretinha com alguma rede
social onde curtia invariavelmente todas as fotos das “gostosas” e fazia
jocosos comentários como “linda” e “perfeita”. Era assim que sua ventilada preocupação
com os estudos sempre se transmutava em verve farrista, só permanecendo na
faculdade, em verdade, por causa da situação financeira de seu pai. O que o
motivava, aliás, a ir para o país germânico era também a fama das muitas
mulheres bonitas e, claro, da excepcional cerveja: “Proust!”. Já se imaginava brindando em algum pub em Sachsenhausen. E disso K. entendia e
gostava bem.
Acalentava um sincero sonho de
conhecer a Alemanha. Fez as contas: se vendesse seu carro, poderia se manter
por um ano de “estudo” inicial na Europa. Lá chegando, certamente seu pai, por
pressão de sua mãe que sempre o acobertava, lhe ajudaria financeiramente. É
claro que não poderia viver no luxo, mas seria um esforço, um sacrifício
apropriado para quem tinha um futuro todo pela frente de muita diversão na
Europa, ainda mais voltando de lá com um diploma... “Um plano perfeito!” –
admitia.
K. era sôfrego com sua carreira
profissional, mas ia nessa toada de faltar aulas, ser reprovado em algumas
matérias, passar por maus momentos na faculdade e nunca compreender as
declinações da língua de Goethe. O pai pagava a sua cara faculdade de medicina,
mas era sua mãe quem lhe cobrava os resultados de cada centavo investido,
sempre o recriminando por não estar indo bem: “Na sua idade, seu pai já tinha
família, trabalho e juízo”, ralhava sua mãe, e ele reagia abaixando a cabeça,
menos por submissão, mais por consciente dependência e chantagem emocional. Sua
mãe ralhava, mas era quem tinha a chave da algibeira paterna.
Como ele era bem afeiçoado, naturalmente
fazia sucesso com as mulheres. Lembrava-se que desde criança era assim, quando
as empregadas de sua casa sempre lhe franqueavam carinhos extras e generosos.
Mas, até então, nenhuma mulher havia lhe despertado um real interesse. Vivia fazendo
incursões nas redes sociais. Elogiava muitas, curtia todas as fotos, muitas
mensagens privadas. Algumas respondiam, outras não. Tinha os seus “contatinhos”
que também lhe assediavam, mandando diariamente “bons dias”, o que ele também
às vezes respondia, dependendo de seu interesse sexual na garota.
Também incursionava por algumas
colegas da faculdade que, invariavelmente, lhe davam bola.
Já sentia todo o incrível
universo feminino que se abriria com as enfermeiras e funcionárias dos
hospitais, pois, mesmo sendo residente, já adotava postura de superioridade.
Fazia questão de ter suas
melhores fotos sociais públicas como se fosse um perfeito universo, um mar de
fantasias. Mostrava suas tatuagens, suas fotos de branco no hospital, suas
festinhas com a sua galera no seu Jet Ski,
em Capitólio, e fotos de muitas viagens.
Todavia, K. não possuía namorada,
se mantinha solteiro, “mas nunca sozinho”, dizia. Sempre havia alguma mulher
visitando seu apartamento. Não eram compromissos sérios, eram mulheres com quem
mantinha uma relação sexual descompromissada e iam embora: bonitas, gostosas,
feias, altas, baixas - lhe era irrelevante.
“Quem come de tudo, está sempre
com a barriguinha cheia”, dizia em tom burlesco aos amigos.
Tinha um filho, Marcos, hoje com
12 anos fruto de seu relacionamento com Amanda. Apesar desse perfil, K. era
carinhoso, amável e não se sentia culpado pelo término do relacionamento,
apesar de entender que era impossível uma reconciliação, devido ao
comportamento ciumento de sua ex. Embora, vez por outra, tivesse “recaídas” e
mantivesse relações puramente sexuais com Amanda, que ainda alimentava
esperanças de tê-lo de volta, para depois ele sumir por uns meses. K. não
prometia a volta, mas também não era sincero com ela sobre suas pretensões.
A criança vivia com a mãe
solteira em Contagem, e K. a visitava esporadicamente. Todavia, em sua página
da rede social sempre havia fotos com o filho. A pensão vinha da mesada que
recebia de seu pai, já que não trabalhava por conta do estudo.
Seu apartamento, em área nobre de
Belo Horizonte, era um pequeno flat, mas suficiente para uma pessoa solteira
viver bem. Muito bem, diga-se de passagem.
O apartamento compunha-se de uma
suíte com um quarto grande, uma sala que se interligava com uma bancada à
cozinha e uma área de serviço. A vista era esplêndida: incontáveis prédios; ao
fundo, entre árvores, se avistava um pequeno pedaço da Avenida Afonso Pena e,
no horizonte, a Serra do Curral. À noite, era uma vista fantástica com todas
aquelas luzes dos apartamentos vizinhos e, apesar de estar num local com
inúmeras edificações, fazia um tremendo silêncio somente entrecortado por
sirenes que passavam apressadas.
Do lado de fora da bancada havia
três bancos redondos com forros de couro vermelho e, do outro lado, o frigobar
com porta de vidro, o fogão de aço galvanizado, um micro-ondas e a bancada da
pia de granito branco com pingos pretos. O chão da cozinha era de granito
cinza. Havia um armário de madeira com as portas de vidro onde guardava os
utensílios. Na sala, duas estantes com prateleiras de madeira, a do lado
direito inteiriça e a do lado esquerdo com duas portas, separadas por
prateleira com a TV e o sistema de som. Na parede anversa, um grande espelho
horizontal. Ali, naquelas estantes, estavam seus livros de medicina.
A mesa de centro da sala compunha
o jogo de móveis da mesma cor e molde.
Um confortável sofá de couro
preto de dois lugares, mas espaçosos, ficava à frente da prateleira televisiva
e se reclinava, transformando-se em verdadeira cama.
Atrás do sofá, muitas garrafas de
bebida em uma adega de parede: uísque e vodca. Num total de umas oito garrafas
perfiladas acima, com uma larga tira de madeira que as seguravam e abaixo o mesmo
número de copos alinhados com outra régua, essa mais fina, e, ainda abaixo
desses copos, pendurados e seguros pela base, seis taças de vinho.
Sempre havia livros e panfletos
de viagens para a Alemanha esparramados pela mesa da sala, ao lado de um cinzeiro
invariavelmente com guimbas de cigarros.
K. costumava estudar na bancada
dessa sala onde também se alimentava, o que pouca diferença fazia, já que
almoçava quase sempre fora de casa.
Fotos de viagens se espalhavam
pela sala e quarto: Cabo Frio com os pais; Porto Seguro ao pôr do sol; no
interior de Minas em uma rave com os
amigos.
Uma vez por semana, ia uma
empregada para limpar tudo.
Na garagem de seu apartamento, um
automóvel de luxo preto, que gostava, com quatro anos de uso.
Apesar de estudante, muitos
viveriam toda uma vida para alcançar aquela condição financeira e não
conseguiriam. E ele sabia disso.
Vivia, assim, entre suas pequenas
preocupações de roupas, viagens, carro, mulheres e, por último, mas não menos
importante, seu curso de medicina. Apesar de sua mãe cobrar resultados, fazia
questão de dar essa vida ao filho: “É minha obrigação de mãe cuidar e
proteger”, dizia, se rendendo aos apelos de K.
Assim ia sua vida até que, entre
um papo e outro nas redes sociais, um livro e outro de seus estudos, observou
uma sequência de três curtidas feitas por uma moça atraente em suas antigas fotos
de uma rede social. Aquilo só poderia significar uma coisa: a garota que curtiu
estava interessada nele. Ele tinha essa perspicácia. Era vívido para os sinais
femininos: “Para um bom entendedor, uma curtida é letra, duas são um oi, três é
um pedido de ‘me procura’, mas três curtidas em fotos antigas é ‘vem
quente’...” – concluía para si, jocosamente.
Narcilla era o nome dela...
realmente linda! Uma morena de pele clara, angelical. Mostrava isso em suas
fotos sensuais de corpo inteiro: uma na praia, com uma canga que mostrava seus
contornos; outra numa fazenda, com cavalos ao fundo, segurando um chapéu de
peão e vestindo uma blusa preta que permitia perceber seus seios duros e
pontudos; outra de bicicleta, toda “geração saúde”, marcando os 16 quilômetros
percorridos em uma trilha com cachoeiras, e outras fotos com suas amigas em
festas de casas noturnas.
Evidentemente que ele sempre
correspondia quem lhe interessava sexualmente. Ela o interessou.
“Era mulher da prateleira de
cima, uma 10/10” - foi como se expressou.
Normalmente, uma mulher daquele
calibre não lhe daria esse mole todo, mas:
“Deus é grande, e eu sou lindo!” - pensou
cheio de autoconfiança.
Realmente, não era todo dia que
aparecia uma moça como aquela, curtindo suas fotos, investigando sua linha do
tempo “de graça”.
“Será um perfil falso? ”– cogitava
consigo.
Imediatamente, K. pesquisou as
fotos públicas de Narcilla, algumas com vários anos de postagem. Suas amizades
estavam bloqueadas, o que era negativo, mas suas fotos eram curtidas por homens
e mulheres, com muitos comentários...
“Perfis falsos de mulheres só
possuem amigos homens... parece um perfil verdadeiro” - diagnosticou.
Eles não tinham amigos em comum;
poucas fotos dela eram públicas; a maioria era foto de perfil antiga; algumas
frases de efeito sem nenhum sentido sobre a vida e amizade; nenhum
relacionamento no status; nenhuma foto com namorado ou que pudesse parecer
namorado.
Em outra rede social, percebeu
que Narcilla tinha mais seguidores do que seguia.
“Requintada... caiu na rede, é
peixe” – pensou - “e que peixão!” – concluiu, enquanto salivava e passava a
língua nos lábios como um pick up artist
experiente.
Não demorou a enviar uma mensagem
para Narcilla e pedir-lhe amizade virtual.
Para sua surpresa, constatou a resposta
naquela manhã.
Fez um café apressado, esquentou
uma fatia de pão e saiu desenfreado segurando em uma das mãos um livro de neurocirurgia
intensiva, na outra seu jaleco e o celular e, na boca, presa entre os dentes,
uma maça que pegou da geladeira.
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Romance: O Labirinto do Cravo - Warley Belo
Lançamento em setembro de 2021!
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[1] K. de Kafka, como em “O
Processo”. KAFKA, Franz. O Processo.
Tradução de Torrieri Guimarães. São Paulo: Abril Cultural, 1979.
Sem dúvida, uma narrativa instigante. Estou curiosa para saber o restante da história. Uma pergunta: foi baseada em fatos reais?
ResponderExcluirSim, foi. Mas foram vários casos reais.
ExcluirAdorei a leitura desse primeiro capítulo, até parecia que já o conhecia, o rapaz da história, muito legal! Espero ler a história por completo.
ResponderExcluirObrigado! Em breve!
ExcluirAnsiosa pelo restante!!
ResponderExcluirObrigado!
ExcluirA primeira impressão é a que fica, agora quero ficar com as próximas impressões que virão! Estou no aguardo dos próximos capítulos no lançamento!
ResponderExcluirObrigado
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